Feliz ano novo

O primeiro dia do resto de nossas vidas

O primeiro dia de um novo ano na Era da Informação. Aos nossos olhos, o mundo continua encolhendo, limites e fronteiras continuam desmoronando, cada vez mais pessoas nos alcançam.

A quantidade de informação colocada ao meu alcance ainda estarrece o menino que se maravilhou com as primeiras bibliotecas escolares que conheceu. Da mesma forma como eu me deleitava em explorar aquelas estantes, hoje me deleito em explorar os meandros e becos da arcologia virtual.

Mas a consciência histórica não me deixa esquecer que a Era da Informação é apenas a veste contemporânea da Era da Comunicação, que engatinhou com a imprensa, começou a andar com a ferrovia, e desatou a correr com o telégrafo. Chegando ao início de sua idade adulta, a Comunicação ganhou um emprego, com um bom salário, e passou a ser a Era da Propaganda.

Em nossa língua, propaganda designa tanto a publicidade que tem fins comerciais quanto a publicidade que tem fins políticos. Outras línguas, como o inglês, distinguem uma da outra; mas penso que neste ponto andamos bem. Vendem-se ideias como se vendem sabonetes, ou esperanças, ou dinheiro, ou almas. Mesmas técnicas, mesmo público-alvo, mesma falta de escrúpulos.

A Era da Comunicação é contemporânea de outra, aparentemente sua prima distante. É a Era do Direito, a fase da história humana na qual o Estado de Direito impera, na qual o homem, o cidadão, a pessoa tem Direitos Universais e Auto-Evidentes. Hamurabi pouco mais fez do que codificar o olho por olho, dente por dente ; nossas leis e nosso Estado avançaram tanto para além do que Hamurabi proclamou, quanto a nossa capacidade de comunicação ultrapassou as bigas que ele conheceu.

Ah, Admirável Mundo Novo. Mas há uma relação insidiosa — não oculta, mas não ostensiva — entre a Era do Estado de Direito e a Era da Propaganda.

Os Estados contemporâneos são ativos participantes do mundo econômico, tanto quanto as empresas contemporâneas. Da mesma forma que uma companhia de bebidas vende a ideia que suas bebidas são saudáveis e que seu único interesse é ver as pessoas felizes, um Estado vende a ideia que suas políticas são salutares e que seu único interesse é ver as pessoas felizes.

Pior. O Estado vende a ideia que ele pode resolver os problemas da sua vida. E de maneira muito simples: basta fazer uma lei. Ou duas. Ou cento e cinquenta mil.

Seu vizinho joga lixo na calçada? Não se preocupe, o Estado criou uma lei que o proíbe de sujar a rua. As chuvas causam enchentes na sua cidade? O Estado cria uma lei orçamentária, garantindo a realização de magníficas obras para solucionar o problema. Sua empresa tem que lidar com um cipoal insondável de regulamentos? Vamos criar uma secretaria de desburocratização, que vai criar novas normas para resolver os problemas que as normas antigas criaram.

Você ganha tudo isso, e muito mais, com o módico pagamento, em prestações diárias, de sessenta por cento de tudo o que você ganha. E não se preocupe, seu dinheiro está em segurança: o Estado, afinal, também tem leis que dizem que os seus agentes não podem roubar o dinheiro que você lhe confiou.

Arre! Sarcasmo pode ser útil, mas até com humor negro estas coisas travam-me a gorja.

O fato é que quem tem o poder — qualquer que seja a sua natureza — frequentemente o emprega em benefício próprio. Pela sua própria natureza, o poder justamente atrai os não altruístas. Hamurabi pode olhar de frente para qualquer chefe de Estado contemporâneo, e com ele trocar um sorriso cúmplice.

Mas não pensem que tudo isso é um elogio ao desespero. Longe disso. É, antes, uma chamada à realidade.

A realidade é que governos e leis não vão resolver os nossos problemas. Nós somos e seremos espoliados, por agentes legais, extra-legais e ilegais. Pouco podemos fazer para impedir isso, pois quase tudo isso escapa ao alcance dos nossos braços.

O que podemos, de fato, fazer, é cuidar bem do que está ao alcance dos nossos braços.

Podemos tratar com respeito e cordialidade as pessoas que nos cercam. Um beijo, um abraço, um sorriso, um “bom dia”, um “obrigado”.

Podemos levar a sério as nossas responsabilidades, como pais, filhos, profissionais, vizinhos.

Podemos aplicar a Regra de Ouro.

Podemos, enfim, ter ciência de que não podemos resolver muitos problemas, e que outros não os resolverão por nós; mas que nós podemos resolver alguns — e que, se nós não o fizermos, nós seremos responsáveis por não tornar este mundo um pouquinho melhor.

Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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