2016-11-01

Uma vez que Curitiba é uma capital de estado, embora não tenha o protagonismo nacional que os locais imaginam, não se pode analisar isoladamente o resultado das eleições municipais.

O atual prefeito, Gustavo Fruet, teve um bom desempenho como deputado, ao tempo que estava no PSDB, especialmente na CPI do Mensalão. Candidatou-se ao Senado em 2010, mas bateu de frente com o governador Beto Richa, também do PSDB, e não conseguiu se eleger. Saiu do PSDB para o PDT, e conseguiu se eleger em 2012 como prefeito de Curitiba, vendendo a alma para conseguir o apoio do mesmo PT que vergastara na Câmara.

O atual governador, Beto Richa, embora seja do PSDB, nunca fez oposição ao governo federal do PT, preferindo a passividade conivente. Diversos escândalos criminosos estão atingindo seus agentes políticos, tanto na capital do estado quanto em seu reduto eleitoral , mas até agora ele está conseguindo se esquivar de indiciamentos. Especialmente para sua reeleição, em 2014, praticou sobejamente o mesmo tipo de estelionato eleitoral praticado por Dilma Rousseff. Seu comportamento habitual é o de se esconder por trás de seus subordinados, manobrando nas sombras, nunca assumindo publicamente qualquer tipo de responsabilidade. A batalha do 29 de abril de 2015, quando ele ordenou o violento ataque da polícia contra grevistas, está indelével na memória paranaense.

Rafael Greca, o prefeito eleito, teve alguma projeção local, quando sucedeu Jaime Lerner na prefeitura, e nadou de braçada no legado urbanístico de seu antecessor. Foi um inexpressivo ministro do Turismo, cargo do qual saiu fustigado por um escândalo de corrupção (ao tempo em que estes escândalos se mediam por pouco milhões de reais), que lhe rendeu um processo encerrado por questões técnicas — ele não foi inocentado, ao contrário do que afirma. Depois disso, voltou a tentar algum protagonismo político, sem sucesso; nas eleições para a prefeitura, em 2010, foi um candidato folclórico, e ficou em sexto lugar.

Richa vem sistematicamente demolindo toda figura de alguma expressão política à sua volta. Nestas eleições, preferiu procurar um poste para ter um candidato para chamar de seu. Escolheu Greca, que ganhou de presente uma campanha milionária para sua candidatura. Na campanha, Greca adotou o mesmo estilo de gordo bonachão que eu vi em 2010 (ignoro se sempre foi assim). Manteve o discurso de ser o candidato amoroso e carinhoso, e essencialmente prometeu a volta ao passado — a volta a uma Curitiba que nunca existiu, exceto no imaginário da cidade que se achava de primeiro mundo. O apoio de Richa foi decisivo, mas ele nunca o reconheceu ou admitiu. Richa, por sua vez, manteve-se em seu papel de manipulador de bastidores.

Greca quase ganhou no primeiro turno, mas teve um acesso de sinceridade em uma sabatina na PUCPR e declarou explicitamente seu asco por pessoas pobres. Foi para o segundo turno, em desvantagem, e abandonou a campanha do amor e carinho para jogar toda a lama que conseguiu encontrar em seu adversário.

Deu certo. E as máscaras começaram a cair.

Em entrevista ainda no domingo, Greca declarou que começaria a trabalhar já no dia seguinte… indo a uma audiência com Richa, e disse que lhe pediria para reestabelecer o sistema de integração de ônibus urbanos da região metropolitana de Curitiba. Este sistema fora demolido pelo próprio Richa, com o objetivo de prejudicar a administração de Gustavo Fruet. Os ônibus de Curitiba deixaram de ter integração com os ônibus das cidades vizinhas, e Richa cortou o subsídio estadual para as passagens de ônibus da capital.

Na segunda, após o beija-mão, Richa declarou que o fim da integração e do subsídio tinha sido pedido pela prefeitura de Curitiba, e que, já que a prefeitura desejava retomar um e outro, que ele certamente o fará. Fruet o desmentiu, claro, mas continuamos a ser o país no qual a versão é mais importante que o fato.

Por sua vez, o mesmo Richa que mobilizou tropas de todo o estado para atacar grevistas vinha tratando com bonomia todas as invasões de escolas públicas no estado, e declarou expressamente que, como a discussão dos invasores era com o governo federal, isso não lhe dizia respeito. Ontem, passada a eleição, chegou à conclusão que as invasões estão passando de uma manifestação que seria pacífica e ordeira para uma manifestação que está irritando a sociedade paranaense e disse que vai acionar a Polícia Militar para encerrar as invasões.

Vou deixar uma coisa muito clara: não vejo ninguém santo em toda esta história, e isso inclui os derrotados nestas eleições. Os invasores das escolas, qualquer que seja o mérito de suas queixas, adotaram uma atitude violenta, e isto é no mínimo aproveitado por forças políticas obscurantistas de vários matizes — inclusive pelo titereteiro do Palácio Iguaçu.

E la nave va.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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