2016-10-26

Tenho procurado acompanhar notícias sobre as invasões ( ocupações ) de instituições de ensino. Diversos pontos me chamam a atenção:

. As invasões são realizadas à revelia da maioria dos estudantes. Isto ficou patente no caso de uma escola estadual de São Mateus do Sul (PR), na qual uma assembleia rejeitou a proposta de invasão. Apesar disso, e contrariando frontalmente a decisão de seus pares, um grupo de estudantes tentou forçar a invasão, e foram impedidos pelos colegas.

. Aceitando, por hipótese, que estudantes do ensino médio queiram invadir suas instituições de ensino, forçando-as à inatividade, fica a pergunta: por que as atividades de ensino infantil e fundamental também são paralisadas por eles? Especialmente por serem escolas públicas, muitas famílias precisam deixar seus filhos nas escolas durante o horário de aulas. A invasão torna-se em uma violência contra estas famílias.

. Li, há pouco, uma nota do movimento que invadiu o prédio D. Pedro I da UFPR. Há um ano, a invasão fora no prédio vizinho, que abriga a Reitoria e os órgãos administrativos da universidade. Desta vez, escolherem o prédio D. Pedro I, que tem principalmente salas de aula. Motivo: A ocupação do prédio administrativo da Reitoria não impactaria o cotidiano da Universidade. A ocupação das áreas administrativas costuma ser utilizada como pretexto para o não pagamento de bolsas e setores terceirizados. Tradução: queremos continuar recebendo nossas bolsas.

. O mesmo documento afirma que a invasão é conduzida por estudantes da universidade, apoiados por professores, técnicos e comunidade acadêmica. Não há a condução por quaisquer organizações, e sim pelo coletivo de estudantes participantes da ocupação. Por outro lado, se alguém quiser participar, é necessária a apresentação da carteirinha de estudante da UFPR e terá que ser apresentado por um dos invasores. Fica a pergunta: qual é a qualificação da comunidade acadêmica mencionada anteriormente no texto dos invasores, e como são identificados? Afirmam que realizam assembleias constantes, abertas à participação de todos… pelo menos, todos os que eles deixam participar. Sombras de George Orwell!

Ao tempo em que fui estudante de graduação, na UnB, houve várias greves de alunos. As greves eram decididas em assembleias, e nós paralisávamos as nossas atividades quando as assembleias acatavam o indicativo de greve. Em que pesem as constantes tentativas de manipular as assembleias, havia um mínimo de respeito ao processo democrático.

Mas o que vejo são grupos — cabalas — que decidem empregar a força para realizar seus objetivos. Quando procuram se cobrir com o já ralo manto da democracia, convocam assembleias para referendar os seus atos — desde que as assembleias sejam realizadas de maneira a dificultar ao máximo a participação dos que não integram a cabala.

Naturalmente, se a assembleia referendar a invasão, a cabala se recobre de glória, como a vanguarda esclarecida da comunidade. Se, por outro lado, rejeitar a invasão, a cabala a ignora, como aconteceu em São Mateus do Sul — afinal, as consciências esclarecidas dos integrantes da cabala não se podem deixar afastar de seu caminho triunfante por qualquer motivo.

Notem que não me manifesto, aqui, sobre os méritos ou deméritos dos motivos reais ou declarados das invasões. Mas combato, contesto sempre, a covardia.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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