2016-10-19

Leio hoje, no Congresso em Foco, artigo de Fábio Flora, com o título Eta, mundo bom A impressionante resignação atual das multidões de camisa amarela . No texto, o autor critica o que percebe como a omissão das multidões que pediram o impeachment da ex-presidenta Dilma, frente a decisões do governo Temer das quais discorda, e frente ao crescimento do eleitorado de partidos que abrigam corruptos.

Ignoro quem seja o autor, e ignoro qual tenha sido a sua posição com respeito aos protestos de rua contra a ex-presidenta. De minha parte, participei, nas ruas, de quase todos os grandes protestos, e sou assim parte integrante das multidões de camisa amarela a que ele se refere. Por isso, sinto-me à vontade para expor por que não estou em protesto nas ruas agora.

Não votei no atual governo, ao contrário de mais de 54 milhões de pessoas. Tampouco votei nas chapas vencedoras nas três eleições anteriores. Não faz diferença. Lula, José Alencar, Dilma e Temer foram eleitos pela maioria do eleitorado. Ao tomarem posse, não eram mandatários apenas para os que os elegeram, mas para toda a nação. Discordei de muitos de seus atos, mas eles foram legítimos. Qualquer decreto, projeto de lei ou de emenda à Constituição de Lula, Dilma ou Temer tem exatamente o mesmo fundamento e a mesma legitimidade de qualquer ato de Fernando Henrique Cardoso, de Itamar Franco, de Fernando Collor, ou de José Sarney. Somente um destes foi merecedor de meu voto,

Aceitar atos dos quais discordo é da natureza da democracia. Não fui à rua por discordar de atos legítimos de Dilma. Fui às ruas para pedir seu impeachment quando ficou patente que ela e seus asseclas cometeram crimes — ou seja, atos ilegítimos.

Já estive nas ruas antes, em 1984 e em 1992. Voltei a elas em 2015 e 2016. Poderei voltar novamente.

Mas não quero o governo das ruas. Não quero que a paixão da turba decida os atos do governo, que a loucura das multidões decida quem é criminoso e quem não é. Quero um governo, eleito democraticamente, e respeitado democraticamente, mesmo por quem dele discorda.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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