2016-10-08

Leio hoje uma manchete, reproduzida com algumas variações em vários noticiosos: Representatividade LGBT nas urnas cresce quase 2000% em 20 anos . A matéria original parece ser do Estado de São Paulo; li na página Bahia Notícias. O dado numérico que permite a conclusão da manchete é este:

Se considerados todos os candidatos, inclusive os que não foram eleitos, a representatividade LGBT nas urnas cresceu 1.916% de 1996 para cá. Naquele ano, eram apenas seis candidatos, segundo levantamento da ABGLT. Em 2016, foram pelo menos 115.

ABGLT é a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.

A porcentagem é o resultado de um cálculo por demais simplista, do estilo que em tempos menos politicamente corretos seria chamado de conta de quitandeiro. Mas não é dela que quero tratar, e sim do pressuposto que fundamenta a reportagem — bem como, presumo, o entendimento da ABGLT, de onde vêm os dados.

O pressuposto é o de que as pessoas gays, transsexuais, lésbicas, travestis, e bissexuais (e mais alguns outros rótulos, suponho) somente podem ser adequadamente representadas por políticos que sejam declaradamente gays, transsexuais, lésbicas, travestis, ou bissexuais.

A democracia representativa tem este nome porque os detentores do sufrágio escolhem pessoas que vão representá-los em órgãos colegiados. A razão para isso é simples: não é mais possível realizar assembleias com todos os cidadãos, como se fazia na Ágora de Atenas. Assim, escolhemos representantes.

Via de regra, os representantes em uma democracia são escolhidos com base em uma circunscrição territorial — por exemplo, um distrito, um município, ou um estado-membro. No caso da eleição mais recente, as circunscrições territoriais eram os municípios. A quantidade de vereadores eleitos em cada município depende da quantidade de habitantes, e varia de 9 a 55 (art. 29 da Constituição). No caso da cidade de São Paulo, com pouco mais de 12 milhões de habitantes, cada vereador representa 218 mil habitantes.

É claro que isso é uma ficção. Para começar, e continuando em São Paulo, a vereadora eleita menos votada foi Sâmia Bomfim, com 12.464 votos. O mais votado, Eduardo Suplicy, foi eleito com 301.446 votos. Isso quer dizer que Sâmia Bomfim representa 12.464 pessoas e Eduardo Suplicy representa 301.446 pessoas?

Não. Não importa quem os elegeu, e nem quantos os elegeram. Cada um dos vereadores eleitos representa os mais de 12 milhões de pessoas que moram em São Paulo. Espera-se de todos eles que pensem em todos os habitantes de sua cidade. O mesmo vale para o prefeito. O mesmo vale para todos os tipos de eleições, mesmo a de um simples síndico de condomínio.

Mas isso é só um lado da questão. O outro é mais profundo, e ao mesmo tempo mais pernicioso. É a perspectiva que afirma que somente alguém que compartilhe a minha particularidade me entende, e é capaz de pensar nos meus problemas. Só o LGBT pode entender a vida de um LGBT. Só um negro sabe o que é ser um negro. Só um deficiente pode avaliar as necessidades de um deficiente.

Por que parar aí? Só um canhoto sabe o que sofre um canhoto. Só um pobre sabe o que é pegar ônibus cheio. Só um desempregado sabe o que é ficar na fila do seguro-desemprego. Só uma criança sabe o que é ser criança. Só uma mulher entende uma gravidez. Só um careca entende o que é não ter cabelos. Só um gordo entende o drama de não passar na roleta dos ônibus. Só um vegetariano entende o sofrimento de ver alguém comendo um bauru. Só um Luiz Cláudio gordo, casado, pai e aposentado entende a vida de um Luiz Cláudio gordo, casado, pai e aposentado.

Tudo isso corresponde a negar a capacidade de empatia de todos os nossos irmãos humanos. Tudo isso corresponde, em última análise, a negar a própria humanidade daqueles que não compartilham uma das minhas particularidades. Como você não sabe o que eu sinto, não sabe o que eu sofro, a sua opinião não tem valor. Pior — não apenas eu não quero a sua compreensão ou empatia, eu sequer admito que ela exista!

Ninguém me entende! é o grito de angústia de muitos adolescentes. Muitas vezes, claro, ele reflete a angústia mais profunda eu não me entendo! Com a maturidade, estes adolescentes aprendem a descobrir que cada pessoa é ao mesmo diferente das outras e igual a elas. Shakespeare bem o disse, ao escrever o solilóquio de Shylock:

Se nos picarem, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos? (O Mercador de Veneza, ato III, cena I)

Temos diversidade na unidade, e unidade na diversidade. Não quero negar uma ou outra. Quero ser humano, em meio a seres humanos. Sede também.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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