2016-09-16

Meses atrás, o ex-presidente Lula declarou que era a pessoa mais honesta deste país. Comentei, à época, que ele me ofendia pessoalmente, uma vez que atacava a minha honradez, e a da avassaladora maioria dos brasileiros.

Ontem, eu seu discurso de resposta ao indicamento pelo Ministério Público Federal, o ex-presidente assim se manifestou:

Eu de vez em quando falo que as pessoas achincalham muito a política. Mas a profissão mais honesta é a do político. Sabe por quê? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir prá rua, encarar o povo e pedir voto.

Notem que isso não é uma contradição, ao contrário do que parece.

Agradeço ao ex-presidente por ter explicado que, em seu mundo, a palavra honestidade e sua forma adjetiva têm uma acepção diferente da que têm para as pessoas de bem. Entendo, agora, que a minha honestidade (na acepção usual do termo) não foi atacada anteriormente.

Na verdade, fico feliz com a sua afirmação anterior; considerando o significado que ele explica para o conceito honestidade , fica evidente que ele é muito mais honesto do que eu.

A continuação imediata da fala do ex-presidente toca em um ponto aparentemente tangencial à sua argumentação:

O concursado não! Se forma na universidade, faz um concurso, e tá com emprego garantido pro resto da vida.

O fato de colocar isso logo na sequência, contrapondo o funcionário público concursado ao político que, em sua visão, é honesto porque tem que ir ao povo pedir votos todo ano , revela diversas facetas do ex-presidente. Nenhuma delas é novidade. Mas é sempre bom evidenciar algumas coisas.

Aparentemente, o ex-presidente entende que um funcionário concursado é merecedor de seu desprezo, precisamente por ser concursado. Embora tenha presidido a República por oito anos, e tenha sido amplamente apoiado por funcionários públicos, o ex-presidente parece achar que todo funcionário público tem curso superior. Além disso, ignora que todo funcionário público está sujeito a sanções disciplinares, estabelecidas por lei e não pelo arbítrio de seus superiores.

Por tudo o que se viu desde 1º de janeiro de 2003, o ex-presidente prefere os cargos de livre nomeação, os chamados cargos de confiança . Em atenção à correção que ele ofereceu para o termo honestidade , permito-me supor que alguém em quem ele deposite sua confiança não seria meritório da minha.

Mais uma vez, o ex-presidente mostra seu profundo desprezo pela educação universitária. Repito, aqui, algo que já mencionei em outras ocasiões: senti-me profundamente envergonhado quando ele foi discursar na Universidade de Brasília, minha alma mater, nos meses que antecederam sua posse como presidente, e bradou que se orgulhava de ter chegado à Presidência da República sem ter estudado — e foi aplaudido de pé por meus professores.

Emerson Leão, o ex-goleiro do Palmeiras e da seleção brasileira, foi certeiro na época. Ele disse que Lula não merecia respeito por ter chegado até a Presidência sem ter estudado, porque desde a década de 1980 ele tivera o tempo e os meios para estudar o que quisesse, e nunca o fez — por evidente falta de interesse.

Não sei se o desprezo que Lula vota aos letrados é mostra de inveja e despeito. Pode até ser cultivado com fins políticos. Corrijo-me: com fins demagógicos.

Não faz diferença. Repudio veementemente um político que quer presidir a República, mas que só oferece ódio aos que percebe como adversários e despeito aos que o apoiam.

Fico com a minha honestidade; fique com a sua.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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