Mentiras, parte I

A propaganda é uma atividade que se vale de muitas ferramentas. Uma delas é a mentira.

Existem muitos matizes na mentira. A mentira escancarada (“Eu não sabia de nada!”) é um caso extremo, claro; o seu perigo não decorre da sua natureza mentirosa, e sim da sua repetição como se fosse verdade.

Algumas mentiras são muito mais perigosas, pois se disfarçam com o manto da verdade. Quase sempre são afirmações que os estudiosos do pensamento chamam de falácias – ou seja, afirmações que parecem ser argumentos corretos, mas que na verdade disfarçam um vício grave.

Por exemplo, o bordão “Não vai ter golpe!” é manifestamente verdade; são (felizmente) muito poucos os que pregam intervenções militares e outros desatinos. A imensa maioria dos que desejam o fim do ciclo do PT no governo quer uma saída constitucional e legal. Assim, a frase é verdadeira.

A mentira embutida é a de que qualquer procedimento adotado contra a presidenta e seus áulicos é um golpe de Estado. Não é, mas berrar “Não vai ter golpe!” sugere – sem afirmar – que está havendo uma trama por um golpe, e que o único recurso dos pobres governantes acuados por sombrios conspiradores é gritar para os seus.

Este tipo de mentira ainda pode ser facilmente percebido, com um pouco de esforço. Mas há mentiras que se camuflam tão bem sob uma capa de verdade que é difícil percebê-las.

Uma destas é “O impeachment não vai resolver nada!” O “nada” nesta frase pode ser substituído por assuntos menos amplos, como “corrupção”, “crise econômica”, ou outro dos temas que nos preocupam. Ostensivamente, é verdade.

A mentira reside em duas falácias. A primeira é de que há apenas duas alternativas (“ou fica tudo igual, ou nada se resolve”). É uma falsa dicotomia, que na verdade bem caracteriza o discurso de muitos extremistas (de “esquerda”, de “direita”, e de muitas outras vertentes), que só enxergam o mundo em preto-e-branco. O mundo, felizmente, tem muitas cores e matizes, e não é binário.

A segunda falácia é de que o objetivo do impeachment é resolver a corrupção. Não é. Prender e condenar um ladrão não acaba com os crimes de furto, prender e condenar um assassino não acaba com os crimes de homicídio. Da mesma maneira, o processo e a possível condenação da presidenta por crimes de responsabilidade não vai acabar com os crimes de corrupção.

O objetivo do processo de impeachment é remover a presidenta do exercício da alta função para a qual foi eleita por nós, em razão de crimes de responsabilidade. É só isso.

Resolver a corrupção é uma luta para muitas pessoas, por muitos anos. Esta luta não começou agora, e provavelmente não terá fim.

Enxergar-se como o pivô ao redor do qual giram as lutas pela democracia e contra a corrupção é, ao fim e ao cabo, apenas mais uma das muitas arrogâncias da súcia. Vão embora; temos mais o que fazer.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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