Segundo Facebookcídio

Em 14 de outubro de 2010, eu decidi criar uma conta no Facebook. Seria mais uma maneira de eu me manter em contato com a família e os amigos, especialmente os que estão longe.

Em 8 de julho de 2012, cansei de tanto ler abobrinhas — a impressão que eu tinha é que a relação sinal/ruído estava piorando cada vez mais — e decidi cometer um facebookcídio. Mandei um e-mail aos mais chegados comunicando a minha grave decisão e, por incrível que pareça, a minha vida continuou.

Durante o ano de 2013, comecei a entrar em contato com os meus colegas de turma do curso de controle de tráfego aéreo. Em 2014 comemoramos 30 anos de conclusão de curso, e eu e outros fizemos um grande esforço para localizar os colegas. Percebi que havia a possibilidade de encontrar alguns pelo Facebook e, assim, em 11 de setembro de 2013, voltei à rede social.

De fato, consegui localizar alguns dos colegas por este meio, e fiquei feliz. Além disso, percebi que as configurações de recebimento de mensagens tinham sido aperfeiçoadas neste meio tempo, e que eu assim conseguia reduzir bastante a quantidade de abobrinhas que eu recebia. Fui ficando, pois o Facebook de fato permite a divulgação de informações muito interessantes.


Interlúdio histórico. Eu comecei a usar a Internet em 1995, antes da Internet comercial existir no Brasil. Era uma conta do Senado, que eu imediatamente comecei a usar para me conectar por telnet ao Illuminati Online (io.com), o serviço da Steve Jackson Games. Com o io.com eu comecei a frequentar a Usenet, um sistema de grupos de discussão separados por assunto, que então estava bem estabelecida na Internet.

A Internet é composta por muitos protocolos e serviços. O protocolo http, que hoje é o mais conhecido, é apenas um deles. Porém, como a imensa maioria dos usuários da Internet chega a ela por meio deste protocolo, estes usuários ficam com a impressão que a web é igual à Internet. Não é bem assim…

Bem antes do Facebook (ou de seus predecessores), a Usenet funcionava como uma rede social. Era um mecanismo formidável para troca de informações, das úteis e importantes às bobagens, passando pelo simples bate-papo. Foi na Usenet que surgiu o famoso spam, que hoje é responsável por uma parte significativa do tráfego na Internet. E, especialmente após o Setembro Eterno, a quantidade de abobrinhas na Usenet começou a aumentar exponencialmente.

Com o tempo, isso foi abafando a Usenet como canal de tráfego de informações. Uma das melhores definições que eu já vi sobre a Usenet deste período veio de Gene Spafford, hoje professor de computação na Purdue University:

**Usenet is like a herd of performing elephants with diarrhea — massive, difficult to redirect, awe-inspiring, entertaining, and a source of mind-boggling amounts of excrement when you least expect it. **

Parece familiar? Ainda participei da Usenet por vários anos, mas com o correr do tempo o acesso a ela foi sendo cada vez menos oferecido pelos provedores de serviços da Internet.


De volta ao presente e ao meu segundo período no Facebook. À medida que eu ia usando o serviço, fui percebendo coisas bastante desagradáveis com ele e com as pessoas que o usam. Vejamos:

  1. O Facebook insiste em mudanças na configuração contra a minha vontade. Por exemplo, no meu *newsfeed* eu quero ver os itens mais recentes — mas, de vez em quando, percebo que a configuração foi mudada sem minha autorização para itens "mais relevantes" (na opinião do Facebook, é claro).
  2. As configurações de privacidade não são exatamente amigáveis ou intuitivas — e eu não me considero um usuário novato.
  3. Eu frequentemente compartilho itens interessantes que eu encontro no meu *newsfeed*. Inicialmente eu fazia extensos comentários sobre alguns deles. Desisti quando descobri que, mesmo quando alguém compartilhava o meu item, os meus comentários não eram compartilhados, mas somente o item original.
  4. O Facebook *não* é lugar para troca de informações, a não ser as mais comezinhas. Por uma razão muito simples: o mecanismo de busca simplesmente não funciona para as postagens. É impossível localizar "aquela foto bacana sobre*** que alguém postou e eu vi na semana passada", se você não souber onde procurar.
  5. O meu *newsfeed* recebe uma quantidade considerável de propaganda ("recomendações"), colocada lá pelo Facebook. Além disso, a barra lateral direita da página mostra mais um bocado de propaganda. Já tive a oportunidade de verificar em primeira mão que vários dos anunciantes são fontes de *malware*, como o Baidu. Isso mostra que o Facebook não se preocupa com *o quê* está sendo anunciado, desde que receba a sua parte...
  6. Por falar nisso: fui informado que o Facebook limita propositalmente a divulgação de itens postados em uma página, a não ser que o dono da página pague pela divulgação. Veja, por exemplo, o artigo em http://www.clubedohardware.com.br/artigos/Como-o-Facebook-esta-destruindo-a-Internet/2925. Outros confirmaram a informação, como a página Books Rock My World.
  7. Junte-se a isso a política de uso do material postado no Facebook, disponível em sua página https://www.facebook.com/legal/terms. Especificamente, o fato de que o que você posta no Facebook concede automaticamente uma licença para uso do material.
  8. As práticas do Facebook com seus usuários não são exatamente modelares: http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2013/08/hacker-que-expos-falha-do-facebook-tera-recompensa-de-fonte-inesperada.html.
  9. Embora a ideia de uma rede social seja socializar, parece que muitos usuários do Facebook não entenderam bem isso... Por exemplo, o Facebook avisa quando é aniversário de alguém e incentiva a mandar uma mensagem para o aniversariante. Muito bom. O que o aniversariante faz? Depende. Uns poucos agradecem a cada mensagem. Muitos se limitam a dar um "curtir" em cada mensagem. A maioria simplesmente ignora as mensagens, e às vezes coloca uma mensagem genérica de agradecimento em sua linha do tempo.
  10. Cortesia, aliás, parece às vezes ser algo do passado. É, eu sei que o computador funciona como um "isolante" social e que muita gente se aproveita disso para dizer e fazer coisas na Internet que não diria nem faria se estivesse cara a cara com outros, especialmente amigos. Isto continua sendo um comportamento condenável, não importa quantos o façam.
  11. A quantidade de bobagens que as pessoas propagam pelo Facebook é impressionante. Não me refiro aqui a postagens com as quais não concordo — se alguém quer ter ideias diferentes das minhas, acho ótimo. Refiro-me a coisas como boatos, mentiras e notícias completamente falsas, que são propaladas como se verídicas, sem qualquer esforço de verificação. Sim, isso acontece em outros meios de comunicação também, mas isso não é desculpa.
  12. Pergunta: de que serve ter uma quantidade de "amigos" no Facebook que precisa de 3 dígitos significativos para ser exibida? Algumas pessoas parecem se comprazer em ficar "amigas" de outras que mal conhecem.
  13. E, por outro lado, há aqueles que ficam enfurecidos quando são retirados das listas de "amigos" de outros — embora nunca comentem postagens, nunca respondam mensagens, nunca compartilhem informação com estes "amigos".
  14. Utilizei o Facebook para divulgar alguns eventos. Mandei convites. Quase ninguém respondia, mesmo para dizer que não ia. Muitos diziam que iam e não se davam ao trabalho de aparecer.

De volta ao Gene Spafford. Ele desenvolveu em 1987 os três axiomas da Usenet, que podem ser encontrados (junto com outas coisas bem interessantes) em sua página http://spaf.cerias.purdue.edu/quotes.html. Os axiomas seguem abaixo; substitua “Usenet” por “Facebook” e veja se não continuam válidos.

*Axiom #1 *:

The Usenet is not the real world. The Usenet usually does not even resemble the real world.

Corollary #1:

Attempts to change the real world by altering the structure of the Usenet is an attempt to work sympathetic magic — electronic voodoo.

Corollary #2:

Arguing about the significance of newsgroup names and their relation to the way people really think is equivalent to arguing whether it is better to read tea leaves or chicken entrails to divine the future.

*Axiom #2 *:

Ability to type on a computer terminal is no guarantee of sanity, intelligence, or common sense.

Corollary #3:

An infinite number of monkeys at an infinite number of keyboards could produce something like Usenet.

Corollary #4:

They could do a better job of it.

*Axiom #3 *:

Sturgeon’s Law (90% of everything is crap) applies to Usenet.

Corollary #5:

In an unmoderated newsgroup, no one can agree on what constitutes the 10%.

Corollary #6:

Nothing guarantees that the 10% isn’t crap, too.


Pois é. Tudo isso mostra que (ao menos para mim) não vale a pena continuar no Facebook. Sim, é interessante ver fotos e saber o que os amigos estão fazendo. Mas isso é muito pouco para justificar a perda de tempo e a perda de sanidade provocada por todo o resto.

Vou manter o meu perfil no Facebook, com um link para estas páginas. Mas vou bloquear todas as notificações, postagens, etc.

Vocês sabem como me encontrar.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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