Primeiro, o link para uma excelente matéria da Cláudia Croitor:

http://g1.globo.com/pop-arte/blog/legendado/post/um-guia-para-o-mundo-das-series-ou-como-ver-series.html

Um de seus comentários merece ser destacado:

“Não escolha gêneros. Tem coisa boa em qualquer um deles: o importante é ser bom. Gosto zero de ficção científica e não ligo a mínima para naves espaciais e ainda assim Battlestar Galactica é uma das melhores coisa que eu vi na vida, para dar um exemplo.”

Ora, não conheço o background da Cláudia Croitor, então vou partir de algumas suposições aqui. A primeira é que ela não conhece a FC (“ficção científica”) literária; a segunda é que, por outro lado, ela conhece vários exemplos da FC cinematográfica e televisiva. Assim, quando ela diz que não gosta de FC, ela estará se referindo à vertente visual da FC.

Por que faço estas suposições? Em decorrência da minha experiência. Conheço vários fãs de FC que não gostaram de Battlestar Galactica. Quando eu investigo os gostos destas pessoas, normalmente descubro que elas gostam da FC visual, e ou não gostam ou não conhecem a FC literária.

Por outro lado, conheço várias pessoas com comentários que espelham os da Cláudia, e quando eu investigo os gostos destas pessoas, percebo que elas não têm paciência com a FC visual e que não conhecem a FC literária.

Perdoe-me a Cláudia se ela não se enquadra nestas suposições. Mas vou basear o resto do texto nelas.


Primeiramente, uma digressão (longa, eu sei) sobre as duas vertentes da FC, a literária e a visual. A primeira é, naturalmente, a mais antiga, com raízes que remontam ao período helenístico da Antiguidade. Mas ela começou a ser relevante justamente com o advento da ciência, e no sentido moderno prefiro identificar em Verne e Wells o início da ficção científica.

Existem muitas definições sobre o que seja FC (cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Definitions_of_science_fiction), mas um ponto que parece comum a muitas delas é a presença de explicações racionais para as ideias que apresentam. Assim, o início de A Connecticut Yankee in King Arthur’s Court não é FC, pois a viagem no tempo de Hank Morgan é inexplicada e acontece por fiat do autor — embora o restante da história, especialmente com a introdução no passado de tecnologia moderna, tenha se tornado um tema clássico da FC. Já Voyage au centre de la Terre, conquanto já não faça sentido à luz da ciência moderna, era baseado nos conhecimentos científicos de sua época e, assim, ainda pode ser considerado FC.

Após a Grande Guerra, nos EUA as obras de FC eram frequentemente publicadas nos pulps, ou revistas baratas. Data deste período a identificação da FC com “that Buck Rogers stuff”. Era o auge da space opera, como as histórias de aventuras espaciais viriam a ser chamadas. Neste período, a ciência era frequentemente apenas uma consideração secundária, o que interessava era a aventura — e, muitas vezes, bastaria substituir as espaçonaves por cavalos e as armas de raios por revólveres para se ter um perfeito western.

No final da década de 1930 e durante a década de 1940, este quadro começou a mudar. A chamada “era de ouro da FC” foi desencadeada pelo surgimento de escritores que passaram a adotar a ciência como fundamento para suas histórias – a chamada FC hard. Assim, por exemplo, Robert A. Heinlein orgulhava-se de ter levado dias desenvolvendo, junto com sua esposa, uma equação para uma órbita Terra-Marte, que foi utilizada como o fundamento para uma única sentença em seu livro Space Cadet.

A dedicação à ciência, contudo, não foi a única inovação da FC do período. Também foi na “era de ouro” que apareceram as primeiras histórias de FC “social”, que nas décadas seguintes viria a ser o tema predominante das obras de FC.

De forma geral, a FC “social” não se preocupa com a inovação científica e tecnológica per se, mas sim com as suas consequências. Assim, por exemplo, Inconstant Moon, de Larry Niven, aborda como pessoas comuns poderiam lidar com um cataclisma no Sistema Solar. A ciência permite explicar o cataclisma, mas o que interessa é como lidar com ele. Já The Star, de Arthur C. Clarke, embora ambientado em uma estrela distante, trata de uma crise de fé. Os exemplos são muitos.

A FC literária moderna continua a seguir este caminho aberto pelos autores da “era de ouro”, por um lado baseando suas histórias na ciência e, por outro, procurando mostrar as consequências humanas das circunstâncias que descreve.

E a FC visual? Os caminhos desta vertente da FC são paralelos aos da FC literária, mas com características próprias.

No início do cinema, os praticantes da nova arte naturalmente buscaram inspiração na literatura. O famoso filme de Georges Méliès, Le Voyage dans la Lune (1902), foi provavelmente o primeiro filme com temas emprestados da FC literária (embora ele fosse mais vaudeville que ciência).

Metropolis (1927), de Fritz Lang, foi outro marco na FC cinematográfica, e prenunciava a preocupação com temas sociais da FC literária. Mas os filmes de FC das décadas seguintes inseriam-se muito mais na space opera dos pulps do que na FC hard, que então estava conquistando o gênero.

Na década de 1950, ao lado dos filmes “B” que continuaram a dominar a FC cinematográfica, houve alguns filmes neste gênero que desafiavam as plateias: foi o caso de Destination Moon (1950), ou Forbidden Planet (1956). Mas foi em 1968, com 2001: A Space Odissey, que a FC cinematográfica tornou-se relevante.

Na TV, a FC estava presente na década de 1950 com programas ingênuos, normalmente dirigidos ao público infantil, e que ainda herdavam características dos pulps. Já na década de 1960, começaram a aparecer as primeiras séries de FC mais séria, como The Twilight Zone ou Voyage to the Bottom of the Sea. E Star Trek

Star Trek não teve grandes audiências durante sua exibição inicial, mas mostrou ser uma das maiores influências sobre a FC visual. A tecnologia de Star Trek deve mais à fantasia do que à ciência (com teleportadores, propulsão warp e muito technobabble). Star Trek, em seus melhores episódios, trata das consequências humanas da tecnologia (como a FC literária); mas, muitas vezes, deixa-se reduzir ao nível de “heróico comandante de espaçonave derrotando inimigos maus, bobos e feios”.

Em que pese sua influência, Star Trek não foi suficiente para alavancar a FC visual. Este feito coube a Star Wars (1977), que abriu as portas dos cofres para a FC. Star Wars foi tão marcante que, pouco depois de seu lançamento, influenciou até mesmo filmes de James Bond (Moonraker, 1979). Há quem diga que George Lucas desenvolveu Star Wars quando não conseguiu os direitos cinematográficos sobre o personagem Flash Gordon, um dos ícones da FC pulp em quadrinhos. Verdade ou não, o fato é que Star Wars é conscientemente uma volta à space opera dos pulps.

Ciência é o que menos importa em Star Wars. O importante é a aventura. E a enorme influência da saga de George Lucas fez com que a FC visual seguisse este caminho.

Assim, a primeira encarnação de Battlestar Galactica, em 1978, devia muito a Star Wars, não menos em suas características visuais — a tal ponto que a 20th Century Fox (Star Wars) processou a Universal Studios (Battlestar Galactica) por plágio.

Graças aos cofres abertos por Star Wars, Star Trek também conseguiu sucesso, primeiro nos cinemas e depois também na TV. As duas séries continuam a ser gigantescas influências no campo da FC visual, e quase que definem o gênero.


Fim da digressão. Vamos falar um pouco agora de Battlestar Galactica — não a série original, mas a sua versão “reimaginada” a partir de 2003.

Ao contrário da série de 1978, que tinha personagens e tramas bastante superficiais, a nova Battlestar Galactica apresenta mais profundidade. Como disse a crítica Diane Werts:

“You can look at this saga any way you want — as political drama, religious debate, psychological suspense, sci-fi adventure, deep metaphor or just plain fun — and it’s scintillating from every angle.”

Não se encontraria na série original um episódio como Flesh and Bone (S01E08), ou como Fragged (S02E03). Estes e outros suscitam questionamentos relevantes, da mesma maneira que a melhor FC literária.

E este é o ponto que, acredito, surpeeendeu Cláudia Croitor e outros, ao mesmo tempo que desencantou fãs da FC visual, todos acostumados a naves espaciais zunindo pelo espaço e a heróis másculos enfrentando o perigo. Battlestar Galactica não é uma série de aventuras, embora alguns episódios possam incluí-las. E a série passa longe da space opera. Ela tem mais em comum com Breaking Bad (ambas partem de uma pergunta semelhante, “como lidar com um problema deste tamanho?") do que com Star Wars — para nossa sorte.

Battlestar Galactica é muito boa justamente porque não segue o formato esperado da FC visual. Como toda boa FC, ela é uma literatura de ideias (http://www.writing-world.com/sf/sf.shtml). Seus personagens são humanos (sim, mesmo os cilônios) e não máquinas.

Assim, Cláudia, espero que no futuro você tenha muito mais FC de qualidade para poder assistir ou ler. Não desista da FC como gênero, pois ela não se resume à space opera.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.