Jogos cooperativos

Publicado em 03/10/2011 | Category: falando-em-jogos, jogos | sinergia, RPG



Sem dúvida, uma das mecânicas mais interessantes que surgiu com os modernos jogos de autor é a dos jogos cooperativos. Certo, a ideia não é nova; especialmente sob a forma de jogos educativos, o conceito de jogos cooperativos pode ser secular.

Mas foi na década de 1980 que surgiram os primeiros jogos comerciais propriamente cooperativos. Possivelmente o primeiro deles foi o Scotland Yard (publicado no Brasil pela Grow como Interpol; não confundir com o 221B Baker Street, que a Grow publicou confusamente com o nome Scotland Yard).

Em Scotland Yard, um grupo de jogadores (os policiais) colabora entre si para derrotar um outro (o ladrão Sr. X). O mesmo princípio viria a ser usado poucos anos depois, com a primeira publicação do jogo Fury of Dracula, no qual alguns jogadores (os caçadores) enfrentam um jogador que controla o Conde Drácula e o perseguem pelo mapa da Europa.

Estes jogos são propriamente chamados semi-cooperativos, pois envolvem cooperação de um grupo contra um outro jogador. Este jogador fornece a oposição imprescindível à experiência lúdica dos demais, e vice-versa. Mas o grupo vence ou perde em conjunto, não há vitória ou derrota individual a não ser para o jogador isolado.

Este modelo ainda é usado, com sucesso. Um jogo recente que o empregou foi o Mousquetaires du Roy, no qual um dos jogadores representa Milady e enfrenta os jogadores representando os mosqueteiros do famoso romance de Alexandre Dumas.

Mas, em todos os jogos mencionados até agora, sempre se sabe quem é o adversário dos jogadores que trabalham em grupo. Isso não precisa ser necessariamente o caso. Em Shadows Over Camelot, um dos jogadores pode ser secretamente um traidor, agindo nas sombras para derrotar os outros jogadores. O mesmo princípio foi usado em Battlestar Galactica, no qual alguns dos jogadores secretamente são cilônios e o jogo fomenta a desconfiança e a paranoia.

Por outro lado, podem existir jogos inteiramente cooperativos. O primeiro foi provavelmente Arkham Horror, no qual os jogadores colaboram para vencer as ameaças do Cthulhu Mythos. Neste jogo, não há adversário ou traidor; todos vencem ou perdem em grupo. Em Lord of the Rings, um dos jogos inspirados pelo livro O Senhor dos Anéis, os jogadores representam os hobbits da Sociedade do Anel tentando destruir o Um Anel e, da mesma forma, todos vencem ou perdem em grupo.

Uma característica essencial a todos os modernos jogos cooperativos é a presença de mecanismos para atrapalhar os jogadores. Com efeito, em todo jogo uma das funções das regras é exatamente esta, mas nos jogos cooperativos a oposição do jogo contra os jogadores tem que ser ampliada. Mesmo nos jogos que dependem de um ou mais jogadores adversários, existe a “progressão do mal”, termo emprestado ao Shadows Over Camelot, quando o jogo age ativamente contra os jogadores. Em Battlestar Galactica, são as cartas de Crise; em Arkham Horror, são os monstros. Em todos os jogos cooperativos, existe uma “inteligência artificial” do jogo para promover o conflito a ser enfrentado pelo grupo de jogadores.

É interessante notar que este conceito pode ter sido tomado de empréstimo aos RPGs, revelando a sinergia entre estes e os jogos de tabuleiro.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.