A atualidade dos clássicos

Publicado em 13/10/2003

Nosso sistema educacional nunca deu aos grandes clássicos da literatura a mesma importância que o antigo sistema europeu lhes dava. Mesmo nossos bacharéis educados em Coimbra dificilmente se familiarizavam com os clássicos, salvo os mais comuns, como as obras de Cicero ou Caesar. Quanto aos autores gregos, somente em traduções para o latim, se tanto.

É manifesto que esta desatenção aos clássicos prejudica ao menos a cultura geral. Mas existem mesmo razões pragmáticas para a sua leitura. Para nos restringirmos ao nosso campo, vamos indicar que o atual sistema internacional caracteriza-se pela franca hegemonia dos EUA. Ora, o sistema internacional dos estados modernos sempre foi multipolar, desde seu aparecimento (em meados do século XVI), chegando no máximo à bipolaridade durante a guerra fria. Para encontrarmos na história um sistema unipolar, hegemônico, temos que nos remontar à Antiguidade; por exemplo, à Roma republicana nos dois séculos após a Segunda Guerra Púnica, ou aos sucessivos sistemas hegemônicos das cidades-estado gregas antes do império alexandrino.

A grande obra sobre a hegemonia ateniense é a História da Guerra do Peloponeso de Tucídides, da mesma maneira que a História de Políbios é a grande obra sobre a hegemonia romana. Mas é Tucídides quem revela de forma mais ostensiva o funcionamento do sistema hegemônico, em um trecho famoso de seu livro: o Diálogo de Melos (livro 5, capítulo XVII). Trata-se de um diálogo travado entre representantes de Atenas, então a grande potência hegemônica da região, e os líderes de Melos, uma pequena ilha que procurava manter-se neutra no conflito entre Atenas e Esparta. Os atenienses desembarcaram em Melos com uma expedição militar e pretendem submetê-la a Atenas; segue-se uma das mais claras exposições já escritas sobre o direito da força. Alguns de seus pontos altos:

Melianos: Vossos preparativos militares estão por demais avançados para que possamos concordar com o que dizeis e vemos que viestes para serdes juízes em vossa própria causa; tudo que podemos esperar desta negociação é a guerra, se provarmos que temos o direito ao nosso lado e recusarmos a submissão, ou a escravidão em caso contrário.

Atenienses: Sabeis tão bem quanto nós que o direito, em todo o mundo, só existe entre iguais em poder, ao passo que os fortes fazem o que querem e os fracos o sofrem.

Atenienses: Falais do favor dos deuses, mas nós mesmos podemos esperá-lo, já que nem as nossas pretensões nem a nossa conduta são contrárias ao que os homens acreditam dos deuses, ou ao que praticam entre si. Acreditamos quanto aos deuses, e quanto aos homens sabemos, que é por uma lei necessária da natureza que governem onde consigam. E não é como se tenhamos nós sido os primeiros a criar esta lei, ou a agir conforme ela; nós a encontramos já existente, e a deixaremos para existir para sempre depois de nós. Tudo o que fazemos é usá-la, sabendo que vós e todos os demais, tendo o mesmo poder que temos, agiriam da mesma maneira.

Resultando infrutífero o diálogo, os atenienses sitiaram Melos. Quando tomaram a cidade, passaram a fio de espada todos os homens adultos, venderam mulheres e crianças como escravas e ocuparam a cidade com quinhentos colonos atenienses.

A história, naturalmente, não se repete. Contudo, isto não quer dizer que os acontecimentos do passado não tenham qualquer importãncia para a atualidade. Ao contrário: especialmente o estrategista não pode deixar de levar em conta as lições da história, à falta de um laboratório no qual possa experimentar hipóteses.

O discurso atual de líderes americanos guarda interessantes relações com o discurso dos atenienses em Melos. Uma importante diferença é que os atenienses não atribuíam seus atos a nada mais do que a seu interesse, ao passo que o discurso dos líderes dos EUA baseia-se na ideologia americana que vê nos EUA a “última e melhor esperança da humanidade”. Mas o punho é o mesmo, esteja ou não revestido por uma camada ideológica.


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