Por uma História Militar

Uma apresentação da disciplina de História Militar, fugindo dos estereótipos a seu respeito.

História Militar é, para muitos acadêmicos, anátema — quando não uma contradição. Associa-se a esta expressão uma infindável enumeração de generais e batalhas, desprovida de qualquer mérito.

Este artigo pretende demonstrar que a História Militar pode e deve afastar- se deste estereótipo, e que traz importantes contribuições ao estudo da História como um todo.

Primeiramente, é recomendável definir o que seja História Militar. Neste artigo, vamos considerar História Militar o ramo da História que estuda os conflitos militares, seus preparativos e suas conseqüências — tanto sob o ponto de vista das ciências e técnicas militares, quanto sob o ponto de vista dos aspectos “civis” sociais e econômicos. Não se trata, portanto, da simples enumeração de batalhas, mas da análise crítica de batalhas e outros eventos correlatos com os métodos da história.

A partir desta definição, percebe-se de pronto que muito pouco se estuda História Militar no Brasil — ao menos nos círculos acadêmicos. De fato, encontram-se muitos trabalhos de História Militar nas Forças Armadas, mas estes trabalhos prendem-se a características peculiares, que dificultam consideravelmente a sua apreciação crítica.

Como todas as atividades nas Forças Armadas, o estudo de História Militar tem primeiramente que atender a um objetivo fundamental: ajudar a aprimorar a qualidade da força. No caso da História Militar, isso freqüentemente resulta em trabalhos ufanistas e patrióticos, que se resumem a acompanhar a visão oficial dos eventos e a exaltar as glórias dos “heróis do passado”. Trabalhos úteis do ponto de vista puramente militar, já que ajudam a forjar o esprit de corps das forças, mas manifestamente insuficientes do ponto de vista do estudo da História como um todo.

Note-se, contudo, que nem todo militar historiador prende-se a esse molde restrito. Houve mesmo uma notável corrente de militares, nos anos que antecederam a 1a Guerra Mundial, que dedicaram-se a um grande esforço de renovação do Exército em linhas modernas; a História Militar foi um dos meios usados por eles para este fim. Estes militares foram chamados “Jovens Turcos”, por analogia ao movimento similar que então revolucionava o Império Otomano.

Mas, de forma geral, o militar historiador evita a visão crítica e restringe-se à exaltação patriótica e a acompanhar a visão oficial dos fatos. Não raro, chega mesmo a transformar a História Militar naquela mera enumeração de batalhas e generais contra a qual falamos no início deste artigo.

Por sua vez, os meios acadêmicos brasileiros quase nenhum esforço dedicam a este ramo da História. Há mesmo razões históricas para isto. As violências cometidas pelos militares durante os períodos em que dominaram a vida pública, especialmente após 1964, legaram uma forte reação dos meios intelectuais contra qualquer estudo sobre assuntos militares — exceto, claro, se forem estudos desfavoráveis aos militares.

Mas, à medida que serenam os ânimos e essas violências vão se afastando no passado, torna-se mais fácil voltar as luzes acadêmicas sobre os fenômenos militares, que não são insignificantes afinal.


O objeto por excelência da História Militar é o conflito militar — via de regra, a guerra. A perspectiva histórica revela facilmente que a guerra foi freqüentemente a ultima ratio dos estadistas; em muitos casos, o conflito armado entre duas nações era um perfeito paralelo do julgamento por combate entre dois cavaleiros na Idade Média.

Mas a guerra não pode ser considerada isoladamente. Maquiavel e Clausewitz entendiam a guerra como a continuação da política; Hitler chegou ao extremo de considerá-la como apenas mais um dos intrumentos da política de Estado, quando não um fim em si mesma. Mas a política não se interrompe com a guerra, como facilmente demonstram conflitos como as guerras da Coréia e do Vietnã. Na verdade, política e guerra têm uma relação notavelmente sinérgica, em que uma influencia a outra e vice-versa.

Um exemplo notável desta sinergia ocorreu em torno à política britânica nas décadas de 1930 e 1940. Quando Hitler revelou ao mundo a Luftwaffe em 1935, a propaganda nazista combinou-se a um quadro de informações militares incorretas, resultando em uma percepção no gabinete britânico de grande inferioridade aérea frente à Alemanha. Atribuía-se então grande valor às teorias dos profetas das forças aéreas, que afirmavam que aeronaves de combate poderiam decidir sozinhas as guerras futuras. O temor de um ataque aéreo devastador às ilhas britânicas foi um fator importante para determinar a política de apaziguamento da década de 1930, ao mesmo tempo em que determinava o início de um processo de rearmamento aéreo (para reduzir a inferioridade percebida) que atingiu seus frutos em 1940. Por sua vez, este processo resultou na derrota da Alemanha na Batalha da Inglaterra e na continuação da Inglaterra na guerra. Por sua vez, a capacidade aérea combinou-se à escassez de tropas terrestres e resultou na opção britânica pelo bombardeio estratégico como a forma de levar a guerra à Alemanha. O encadeamento de conseqüência não se resumiu a estas, mas este exemplo demonstra claramente a inter-relação entre considerações militares e políticas.

Esta inter-relação tornou-se particularmente evidente durante as “guerras totais” do século XX, claro, mas não era novidade: por exemplo, durante a República Romana pós-Aníbal, toda a economia romana girava em torno às ações militares dos magistrados. De forma geral, nenhum conflito pode ser considerado isolado de um quadro histórico mais amplo.

Por outro lado, mesmo atividades militares não-bélicas — meramente preparatórias — freqüentemente têm grande impacto social. Por exemplo, o esforço consciente do Bundeswehr em tentar criar uma ética não-militarista em seus quadros, tanto profissionais quanto transientes, teve marcado impacto sobre a sociedade alemã moderna. No Brasil, o desenvolvimento da malha viária foi em muito impulsionado pela percepção dos militares de uma necessidade estratégica de vias de acesso; não é acaso que os batalhões de engenharia de construção e de engenharia ferroviária tenham desempenhado um papel tão importante nestes trabalhos ostensivamente civis.

As atividades militares dependem fundamentalmente de uma infra-estrutura civil. Até a 2a Guerra Mundial, por exemplo, a disponibilidade de um grande rebanho eqüino dava uma perceptível vantagem estratégica a um país, permitindo-lhe convocar cavalos suficientes para a cavalaria e (especialmente) para o transporte de suprimentos. Uma infra-estrutura de transportes desenvolvida igualmente resultava (e ainda resulta) em vantagem estratégica. Contudo, as atividades militares não se desenvolvem em um vácuo e não podem vitimizar as atividades civis, sob pena de a capacidade militar evaporar-se rapidamente. Assim, em muitas sociedades antigas os exércitos cessavam as lutas nas épocas de colheita. Mussolini podia jactar-se de seus “oito milhões de baionetas”; mas o preço para os seus sonhos de império foi alto demais. O esforço de guerra paralisou o crescimento da indústria italiana e, encerrados os três anos da guerra provocada pelo Duce, a Itália foi ocupada pelos nazistas e pelos Aliados e sofreu ainda quase dois anos mais de uma guerra ruinosa.

A mesma dependência de uma infra-estrutura civil revelou-se na vitória dos Aliados contra a Alemanha em 1945. As duas armas que deram a vitória às forças aliadas e soviéticas normalmente não apareciam no campo de batalha: eram os Liberty Ships, navios mercantes produzidos em enormes quantidades pelos estaleiros americanos (e que afinal permitiram a vitória na Batalha do Atlântico contra os submarinos), e os caminhões de transporte da retaguarda, produzidos em quantidades também enormes pela indústria automobilística americana. A capacidade logística resultante permitia o transporte de quantidades de suprimentos que os meios logísticos do exército alemão nunca conseguiram igualar, mesmo em seus melhores dias.


O objeto do estudo da História Militar é portanto o conflito armado, bem como seus preparativos e suas conseqüências. Mas os métodos deste estudo são os mesmos métodos do estudo da História. Muitos dos fatores relevantes em outros campos de estudo da História são igualmente relevantes no estudo da História Militar. Assim, o papel do general nos conflitos militares equipara-se ao papel do estadista nas relações internacionais; por exemplo, as características pessoais de MacArthur tiveram considerável influência no desenrolar da Guerra da Coréia.

As ciências auxiliares da História também prestam inestimável auxílio à História Militar. Por exemplo, a demografia ajuda a compreender a tímida política externa francesa da década de 1930. A gigantesca carnificina da 1a Guerra Mundial atingiu principalmente os jovens. Assim, a natalidade nos anos da guerra e nos anos imediatamente subseqüentes estava grandemente reduzida. Isto, por sua vez, resultou em uma drástica redução da disponibilidade de jovens em idade militar em meados da década de 1930, contribuindo fortemente para a percepção de fraqueza do Estado francês neste período.

Mesmo idéias já abandonadas no estudo da História podem ainda ter lugar na História Militar. Por exemplo, a idéia das “fronteiras naturais” (ela própria provavelmente de origem militar) ainda tem importância. Em fins de 1944, as tropas dos Aliados não tinham condições de vencer a barreira do Reno em seu ataque contra a Alemanha. Os quase seis meses de preparativos resultaram no prolongamento da guerra na Europa e na ocupação da Europa Oriental pelas forças soviéticas; tivesse o Reno sido ultrapassado em fins do outono de 1944 e a conferência de Yalta poderia ter tido um caráter marcadamente diferente.


O emprego dos métodos da História ao objeto de estudo da História Militar muitas vezes poderia lançar luzes sobre outros aspectos da História. No Brasil, por exemplo, a atuação da FEB em 1944-1945 ainda revela aspectos merecedores de estudos mais aprofundados, em que pese a abundância de material publicado sobre ela.

O que de fato significou a experiência militar de servir na FEB? Com efeito, é corriqueiro afirmar-se que os quadros da FEB perceberam a dicotomia entre defenderem a democracia nos campos de batalha da Itália em nome de uma ditadura doméstica. Mas o fato é que quase todo o pessoal da FEB foi desmobilizado imediatamente quando de seu retorno ao Brasil e não teve qualquer participação no golpe que, afinal, derrubou Vargas; desde então, ficaram relegados ao papel de meros figurantes em paradas cívicas. Por outro lado, os oficiais profissionais da FEB, que permaneceram no Exército, participaram freqüentemente de conspirações e golpes durante as duas décadas subseqüentes, revelando certamente grande desamor pela democracia. Um dos principais propósitos que orientou a criação da FEB — a criação de um quadro com experiência militar atualizada, para servir como um catalisador para a modernização do Exército — foi abandonado quase que de imediato em favor de um conservantismo tacanho.

Outro aspecto muito comentado da participação brasileira na 2a Guerra oferece resultados bastante interessantes quando estudado sob o ponto de vista da História Militar. Trata-se da hipótese (tão querida a alguns nacionalistas exacerbados) de que os navios brasileiros afundados em 1942 foram atacados por submarinos americanos e não por submarinos do Eixo. Cronologia, estratégia da guerra, posição geográfica, capacidade técnica, tudo mostra que nossos navios foram de fato atacados por submarinos alemães e italianos, e que os americanos não precisavam recorrer a um artifício tão perigoso para lograr a ajuda brasileira em seu esforço de guerra, até porque quando dos afundamentos esta já estava materializada nos aspectos que lhes interessavam.


A História Militar apresenta, assim, objeto próprio de estudo, ao mesmo tempo que utiliza as ferramentas comuns ao estudo da História. Trata-se de um ramo autônomo desta disciplina e pode contribuir com perspectivas úteis para a melhor compreensão de diversos fenômenos históricos.

Estudar História Militar é necessário? Não mais do que estudar História das Relações Internacionais ou História das Idéias. Contudo, assim como estes ramos do estudo da História, estudar História Militar — de forma crítica e mente aberta — contribui para a melhor compreensão da História como um todo. Neste sentido, torna-se necessário dar mais atenção à História Militar e permitir-lhe trazer a sua colaboração ao estudo da História.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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